O que o rock pode nos ensinar sobre Marketing e Gestão

Hoje é o Dia Mundial do Rock, gênero que surgiu nos anos 1950 e que trouxe uma importante contribuição e transformação para várias gerações. Transgressor, rebelde, desbocado, o Rock’n Roll se originou do Blues e seu nome remete a um eufemismo da década de 1920, correspondente ao sexo, inspirada na letra de “My Man Rocks Me (With One Steady Roll)”. Vá até o Google e peça para que ele traduza!

Mas o Rock, em toda sua acidez, rebeldia, gritos e riffs de guitarra, também foi terreno fértil para práticas e estratégias de Gestão de Negócios e Marketing, o que inicialmente pode até parecer incoerente aos cabeludos esfarrapados, tatuados, mascarados, pelados.

Mas, o Rock há muito tempo deixou de ser apenas música para se tornar um grande negócio, em que muitas bandas e seus integrantes se profissionalizaram. Exemplos não faltam. Os Rolling Stones se tornaram um ícone de gestão com Mick Jagger que, além de vocalista e “contorcionista”, virou um verdadeiro CEO da banda.

Ed Van Halen se certificava que os produtores cumpriam os contratos de segurança para os shows com a esdruxula, porém eficaz, cláusula do “M&M Marrom”. E chegou a deixar de fazer show em um local em que não atenderam a exigência do M&M. A sua lógica era plausível: se eles não atenderam à exigência da guloseima é porque não leram o contrato, sendo assim não iam atender também aos requisitos mínimos de segurança.

Ritchie Blackmore, em dado momento, transformou o Deep Purple numa empresa e seus colegas se tornaram “colaboradores”, para não os chamarmos de funcionários.

Selecionamos aqui alguns casos muito interessantes que mostram o que podemos aprender sobre Gestão de Negócios e Marketing com o Rock’n Roll

 

Logística e expansão de marca da besta

Gestão de marca e logística

Iron Maiden é um dos grandes exemplos de gestão no mundo do Rock. A banda de Heavy Metal inglesa foi fundamental para consolidar o chamado “New Wave of British Heavy Metal”, que no final dos anos 1970 rivalizava com o movimento Punk.

Desde de o início, o Maiden definiu sua imagem de marca com o mascote Eddie The Head. O ser decrépito é para o Heavy Metal o que o Mickey significa para os desenhos animados.  Das capas, camisetas, bonecos, chaveiros e demais quinquilharias, Eddie se transformou em um símbolo referenciado na cena do Rock e sempre rendeu muito faturamento.

Até aí tudo bem, mas o que dizer de cerveja? Sim, a banda resolveu apostar em um selo de cerveja. A Trooper, que traz o mascote no fardamento, ilustra uma das músicas mais populares do Iron Maiden: “The Trooper”. Mas, como explica o vocalista da banda, Bruce Dickinson, não se trata apenas de inserir um rótulo em uma cerveja qualquer. Na verdade, foi criada uma cerveja que tivesse o “sabor” e a “essência” da banda, proporcionando aos fãs uma experiência diferenciada com a marca.

Porém, a Donzela de Ferro se tornou um exemplo de gestão quando percorreu a turnê “Somewhere Back in Time” a bordo de um Boeing 757-200, batizado de Ed Force One, em 2008, comandado pelo próprio vocalista Bruce Dickinson.

O jato foi “adquirido” e preparado para carregar a equipe da banda e seu equipamento. Em entrevista os integrantes da banda explicaram que o avião próprio permitiu uma logística mais eficaz e reduziu custos desnecessários, resumindo, menos tempo, menos gasto, menos cansaço para os músicos e mais autonomia.

O resultado foram 90 shows, em 14 meses, ao redor do mundo. Para a banda o processo foi tão eficaz e satisfatório que para a turnê do disco “The Book of Souls”, o sexteto arrendou um 747-400, bem maior que o primeiro avião. E, mais uma vez, comandado por Bruce.

 

Macca Experience

Marketing Pessoal e Experiência de Marca – Sensações e experiências com o público

Entre as inúmeras publicações que dissecaram os Beatles, sempre existiu uma corrente que apontava divergências entre as expectativas de Paul McCartney e John Lennon, que teria culminado no precoce fim do grupo.

Paul nunca escondeu sua vocação em produzir para o gênero World Music, enquanto Lennon, sempre teve uma postura mais ácida e contestadora, que buscava usar sua música para defender o que ele (e Yoko) acreditavam.

De lá para cá muita coisa aconteceu, mas McCartney continuou a ser um pop star, cada vez mais carismático e politicamente correto. Com o seu talento musical, aliado a uma gestão de marca e marketing pessoal impecáveis, Paul arrebata antigos Beatlemaníacos e uma enorme geração nova de fãs.

O Marketing já começa pela agenda das turnês, que prioriza locais fora da “rota” convencional dos shows, o que torna a sua apresentação um acontecimento único. Em seguida vem a produção impecável, o contato no pré e pós show com o público e as intervenções propostas com os fãs durante o show – que protagonizam verdadeiras performances. Tudo isso traz para o público uma experiência diferenciada diante do Fab Four, que acaba por reforçar a sua marca e estimular o consumo de outros produtos atrelados a ela.

 

Pérola 3.0

Marketing 3.0 – foco no ser humano e nas suas necessidades

Fruto do movimento grunge que ascendeu no final dos anos 1980, na cena de Seattle, o Pearl Jam caiu nas graças do mercado, junto com o Nirvana. A postura contestadora das letras, o visual “não produzido” e o posicionamento despreocupado marcaram o movimento.

O tempo passou e o Pearl Jam, talvez inconscientemente, caminhou dentro do preceito do marketing 3.0, de não ser a “venda pela venda”, mas, sim, de se preocupar com o ser humano, com as suas necessidades e o que o seu “produto” poderia agregar para construir um mundo melhor.

Os exemplos de como usam a amplitude de sua voz para promover debates em diversas esferas são muitos: as bandeiras erguidas em defesas de inúmeras causas em suas letras e nos discursos, entre elas a valorização das mães solteiras e do casamento gay; a batalha judicial contra a Ticket Master por discordar da política injusta de preços dos ingressos repassados para o público; a decisão de gravar todos os shows da turnê de 2000 como uma ofensiva à pirataria; a ação filantrópica para os desabrigados da tragédia causada pelo rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, Minas Gerais; inúmeros shows realizados para ajudar obras sociais; trabalhos realizados junto a diversas ONGs e Institutos, entre outros.

 

Pop Mar(keting)

Muito antes do Pearl Jam ser fundado, os irlandeses do U2 saíram dos conflitos adolescentes para uma postura pacifista, que desencadeou com o álbum “War”, de 1983. Motivados talvez por “Sunday Blood Sunday” que descrevia o “Domingo Sangrento”, tragédia na cidade irlandesa de Derry, envolvendo católicos e protestantes.

Durante sua trajetória o U2 não apenas revigorou a World Music nos anos 1980, mas abraçou causas humanitárias e atuou junto a Anistia Internacional. Além disso, expôs zonas de guerra em seus discursos e em suas composições, como a famosa música “Miss Saravejo”, que repudia a Guerra da Bósnia.

Críticas à estagnação da sociedade diante da televisão, consumismo, questões étnicas, religiosas e raciais também sempre tiveram presentes nas obras e nas ações do U2.

A tendência prosseguiu em produções como “How to Dismantle an Atomic Bomb”. Assim como o show em memória das vítimas do ataque terrorista a Paris em 2015, quando a banda montou seu palco no Stade de France, que foi onde os ataques começaram. Entre as homenagens, o U2 interpretou uma das músicas da banda Eagles of Death Metal, que se apresentava no teatro Bataclan quando foi invadido pelos atiradores resultando em 89 mortos.

Tudo isso fez do U2 uma das bandas mais engajadas em movimentos pacifistas e ajudou não somente a consolidar sua imagem, mas, principalmente, estimulou uma geração inteira a refletir sobre suas ações e sobre a responsabilidade de cada um no mundo.

 

O camaleão, o morcego e o diabo

 Marketing Pessoal, Inovação e Capacidade de Adaptação

Muitos artistas do rock se viram mergulhados em abismos devido ao comportamento extravagante, regado a todo tipo de excesso com drogas, sexo e álcool. Outros sempre precisaram se reinventar para se manterem no jogo do show business. Ozzy Osborne, Gene Simmons e David Bowie exemplificam bem as formas de se equilibrar na gangorra do sucesso.

Bowie foi um músico genial, não por seu virtuosismo, mas por sua capacidade de se adaptar às mudanças climáticas da música. O “Camaleão do Rock” conseguiu mesclar estilos e tendências de uma maneira que poucos outros artistas fizeram. Nem mesmo U2 e Rolling Stones atravessaram as “fases” da maneira que David Bowie fez. Aliás, sempre era esperado que Bowie sofresse metamorfose ou criasse algo surpreendente. Até sua morte foi trabalhada em música. Vítima de um câncer no fígado, Bowie lançou o álbum Blackstar, dois dias antes de seu falecimento, em 10 de janeiro de 2016. O disco tratava justamente da finitude, com destaque para a faixa “Lazarus”, uma analogia ao personagem bíblico ressuscitado por Jesus.

Ozzy embarcou na montanha russa do rock de forma intensa e inconsequente. O “Príncipe das Trevas” fez de tudo e mais um pouco. No Black Sabbath e em sua carreira solo foi um personagem icônico no mundo rock e se adaptou às tendências do Heavy Metal, a ponto de transformar o seu cabelo escorrido em madeixas felpudas e descoloridas. A verdade é que Ozzy conseguiu se reinventar fora da música no reality show “The Osbornes”, transmitido entre 2002 e 2005, que retratava as desventuras do “comedor de morcego” como pai de família.

No ano passado o roqueiro voltou para a TV com o programa “Ozzy and Jack`s World Detour”, em que ele e seu filho Jack caem na estrada para conhecer diversos pontos turísticos. E quem também bebeu na fonte da TV para reforçar seu marketing pessoal foi o baixista linguarudo Gene Simmons, do Kiss. O músico israelense revigorou sua imagem com o reality “Gene Simmons: Family Jewels”, que teve 157 episódios exibidos entre2006 e 2012.

As exposições de Ozzy e Simmons fizeram bem para o Black Sabbath e ao Kiss, que voltaram a excursionar e garantiram a aposentadoria dos velhinhos, que podem até ser “doidões”, mas, não são do tipo que rasgam dinheiro!

 

 

 

 

 

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